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Acessibilidade à Cultura versus Cultura da Acessibilidade?

 

O Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, surgiu com um projecto inovador que pretendia combater dois problemas graves: por um lado, a inexistência de um número suficiente de espaços e eventos culturais, e, por outro, a necessidade de uma requalificação de algumas zonas nobres da cidade. Sempre supus que a aposta na Cultura tivesse como objectivo último a formação de cidadãos com horizontes mais alargados que as meras necessidades diárias de subsistência, mais exigentes em relação ao que os rodeia, enfim, mais bem informados – ou mais capazes de se informarem. Daí ter sempre discordado das opiniões segundo as quais gastar dinheiro em concertos e espectáculos de rua é dinheiro mal gasto num país onde ainda há quem não tenha onde morar. No início da linha da resolução dos problemas tem que estar a capacidade de cada um se assumir plenamente como cidadão e de exercer os seus direitos enquanto tal, e para isso a Cultura é fundamental.

É por isso com grande pena que verifico que a autarquia portuense, tal como a própria Sociedade Porto 2001, se tenham “esquecido” de dar o exemplo e de tratar com o devido respeito todos os cidadãos, independentemente da sua facilidade ou dificuldade de locomoção. É que se torna difícil assegurar a democratização do acesso à cultura quando o simples acesso à rua é um obstáculo, por vezes intransponível. Eis alguns exemplos.

passadeiras sem rampas de acesso numa rua com bastante transito
Quem quiser percorrer a Avenida Júlio Dinis em toda a sua extensão, do Palácio de Cristal até à Boavista, tem agora ao seu dispor rampas nas passadeiras. Só é pena que se tenham esquecido que algumas pessoas também querem, sabe-se lá por quê, atravessar a Júlio Dinis de um lado para o outro, e não apenas subi-la e descê-la. E aí é que vontade de melhorar a cidade e a vida dos seus cidadãos já não chegou. É pena.

As obras no Largo do Bom Sucesso, como o demonstra a imagem, foram uma provação para todos. Se os responsáveis pelas obras tivessem sido obrigados a percorrer a zona de olhos vendados ou em cadeira de rodas, talvez para a próxima se lembrassem que tapar buracos nos passeios com separadores plásticos que habitualmente servem para delimitar zonas de tráfego automóvel não é, definitivamente, uma solução que se apresente, por mais provisória que seja. E com aquela proliferação de vedações, fugir, só para o passeio. Mas sem rampa, claro.

 

Paragem do auto carro sem rampa para a estrada e com varrões a proibir a circulação de pessoas

Aqui, na futura Casa da Música, pode ver-se como as obras promovidas pela Sociedade Porto 2001 não foram contagiadas pelas intenções do promotor: ocuparam o passeio da Avenida da Boavista e o espaço que há entre o taipal das obras e a paragem de autocarros é o que se vê. A rampa também foi esquecida, o que torna a situação duplamente complicada. Aquela útil barra de ferro que faz as vezes de corrimão impede qualquer tentativa fuga para a estrada. A Cultura encurralou o cidadão?

 

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  por Eduardo Basto
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