COMO ANDA A INCLUSÃO?
Entrevista com a psicóloga Eliza Helena Ercolin


"A formação do professor deixa a desejar, pois mesmo atualmente com a obrigatoriedade do curso superior para o magistério, percebe-se que o professor aplica muito pouco o que aprende em sua prática diária."
O movimento para a inclusão inicia-se nos EUA em 1975. No Brasil, este compromisso foi firmado em 1990 na Conferência Mundial sobre Educação para Todos em Jomtien, Tailândia, e através do Fórum Mundial da Educação em Dacar, Senegal (2000).Que movimentos e resultados obtiveram efetivamente nestes 13 anos?

Eliza Ercolin Na Declaração Mundial de Educação para Todos, aprovada pela ONU em 1990, o direito da pessoa portadora de deficiência freqüentar a educação regular está apenas implícito. Na Declaração de Salamanca, em 1994, a UNESCO expressa claramente os termos inclusão, educação inclusiva, princípios inclusivistas, entre outros. No Brasil, a Declaração Mundial para Todos serviu como base para o Plano Decenal de Educação para Todos, em 1993. Em 1996, a Assembléia Geral da ONU aprovou o documento Normas Sobre a Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência.No Fórum Mundial de Educação em Dacar, 2000, a avaliação feita sobre os avanços desde Jontiem, mostrou que houve algumas iniciativas na maioria dos países, porém ainda era pouco, reafirmaram então o compromisso de se construir uma sociedade inclusiva.
Também em 2000 houve um encontro de várias entidades ligadas às pessoas portadoras de deficiência que resultou na Declaração de Pequim sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência no Novo Século.
Em 2003, temos a Declaração de Quito (Equador), onde foi elaborado um documento sobre a questão da inclusão. Este foi elaborado durante o Seminário e Oficina Regional das Américas.
Como podemos perceber, ocorreu em todos os países uma maior visibilidade da exclusão imposta às minorias, principalmente das pessoas portadoras de deficiência. Questões como educação especial e salas especiais estão sendo debatidas em fóruns internacionais. A questão da acessibilidade a ambientes físicos resultou na "Arquitetura sem Barreiras", projeto em que se discute a necessidade de se construir pensando na inclusão de todos. Nas áreas de lazer, turismo e recreação também temos alguns avanços.
O processo de inclusão está sendo aplicado em várias áreas e para ilustrar vou relatar um fato bastante relevante: no mês de abril deste ano, fui convidada por uma Universidade de São Vicente (SP) a dar uma palestra aberta ao público sobre o tema Educação Inclusiva. Compareceram 750 pessoas das quais quase a metade era constituída de alunos dos cursos de graduação em Administração e de Turismo. Eram jovens entre 18 E 21 anos muito interessados no tema e saíram da palestra com muitas idéias para aplicar na cidade.


Como a lei ampara os deficientes com relação à aceitação dos mesmos nas escolas?

E.E. A lei deixa claro que países democráticos devem garantir uma escola de qualidade para todos. A Lei de Diretrizes e Bases em 1996 já determinava a inclusão escolar, porém a partir de 1998 inicia-se efetivamente a inclusão em escolas públicas. Escolas e espaços deveriam ser adaptados, professores capacitados e este processo vem se desenvolvendo lentamente. Dados do Censo 2000 mostram que 24,7% dos alunos portadores de deficiência freqüentam classes comuns em escolas regulares e 75,3% em escolas especiais e classes especiais. A lei é importante no sentido de garantir um direito, porém o trabalho dos professores no sentido de informarem-se, capacitarem-se e acolherem a todos os alunos é fundamental.
No ano passado eu fiz uma pesquisa com 180 professores do ensino comum e que eram estudantes do curso de Pedagogia. Para minha surpresa, 72% dos professores responderam que a educação inclusiva era uma manobra do governo brasileiro para não investir na educação especial. Desconheciam o movimento internacional de educação inclusiva e 80% eram favoráveis a permanência da escola e classes especiais, não julgando o fato uma discriminação.

As escolas estão física e estruturalmente preparadas para receber estes alunos?

E.E. Para ser bem honesta, acho que a escola que oferecemos aos nossos alunos é de maneira geral, péssima para a maioria dos alunos. Basta olhar as reportagens sobre alunos de 8ª série semianalfabetos, os resultados das avaliações do ensino fundamental, etc. A formação do professor deixa a desejar, pois, mesmo atualmente com a obrigatoriedade do curso superior para o magistério, percebe-se que o professor aplica muito pouco o que aprende em sua prática diária. Faz o curso por ser necessário à sua permanência na rede, porém, será que realmente pode render no curso, geralmente feito à noite, após uma jornada dupla em sala de aula? E a queixa freqüente de baixos salários e falta de recursos e materiais pedagógicos? Quem pode fazer um bom trabalho nessas condições? A lei já obriga que novos prédios sejam construídos de acordo com normas adequadas ao acesso de todos, no caso, ao se tratar de rampas de acesso, banheiros adaptados, etc. Isto porém é pouco, não basta somente isto. E as crianças que não usam cadeiras de rodas, mas apresentam um quadro de paralisia cerebral, por exemplo, irão necessitar de apoio para sentarem-se confortavelmente, órteses e próteses para escrever? Ou aquelas que poderiam escrever num teclado adaptado às suas necessidades, quem vai suprir todo este material? E a metodologia empregada em sala de aula, quem irá questionar qual a melhor a ser utilizada para aqueles alunos? A avaliação deverá ser repensada, será que obrigatoriamente devemos ter material escrito manualmente para provar que o aluno sabe? E se todos estes recursos estiverem disponíveis e o professor não estiver consciente da justiça da educação inclusiva, de que vai adiantar? A escola é feita com e por pessoas, e a grande dificuldade reside aí.

Quais são as queixas mais freqüentes por parte das escolas e educadores quando falamos de inclusão?

E.E. Das escolas, a questão é 'como farei meus professores aceitarem mais este encargo?'. Por parte dos professores, a queixa sempre se refere à 'não estou ou fui capacitado para isto'. Não nego as dificuldades econômicas da classe do magistério, porém o aluno não pode pagar esta conta. Acho que a maioria das queixas é fruto da falta de informação da escola em geral, muitos acham ainda que todo aluno, inclusive aqueles com deficiência em grau severo, irão freqüentar sua classe. É óbvio que não, não dá. A qualidade da escola e do professor não comporta um trabalho desta natureza. A grande vantagem da educação inclusiva é fazer os profissionais da educação refletir sobre a qualidade da escola e de seu trabalho. Para quem ainda não leu, recomendo a leitura da excelente obra de Maria Helena Souza Patto, "A produção do fracasso escolar". Para aqueles que ainda não se convenceram da legitimidade da educação inclusiva, deixo uma pergunta: a escola em que você trabalha está na mais perfeita ordem, o trabalho é de excelente qualidade, os professores são altamente motivados e somente o recebimento de um aluno portador de deficiência seria capaz de destruir todo esse belo cenário?

As Universidades vem capacitando os futuros profissionais para a docência através de conteúdos e estágios para lidar com os diversos tipos de deficiência em sala de aula?

E.E. Já há várias universidades com a disciplina educação inclusiva em sua grade curricular e outras introduzem o tema dentro da disciplina de psicologia da educação. Tenho recebido muitos e-mails de alunos de cursos de Odontologia, Artes, Desenho Industrial, Administração e de Turismo, entre outros, pesquisando sobre o tema para realizarem trabalhos na área de inclusão. Li um artigo no site do MEC, que o Conselho Federal de Educação planeja introduzir o conteúdo de educação inclusiva em todos os cursos de graduação. É um bom sinal.

Vemos que ainda é preciso lutar por acessibilidade nas Universidades. Não somente por vagas, como também muitas ainda não se adaptaram para receber pessoas portadoras de deficiência física. Estas não deveriam ser as primeiras a se adequar a este novo momento?

E.E.Quando se pensa na Universidade como um centro de produção de conhecimentos, acho realmente que as mesmas deveriam ser as primeiras a adequarem-se ao momento. Porém, ao constatar a realidade da maioria dos portadores de deficiência, que não tem acesso a creches e escolas de educação infantil, percebo que temos que correr. Não dá mais para ficar à espera da conscientização de todos os envolvidos. Paralelamente à capacitação de profissionais, adaptação de instalações, devemos atender esta clientela que já foi excluída por tempo demais. Quanto mais cedo a criança é atendida, melhores as suas chances na vida escolar. Pensando no binômio deficiência-pobreza, o momento exige urgência.


Podemos afirmar que os grandes problemas na questão da inclusão são o preconceito, a falta de informação e a intolerância?

E.E. Com certeza. Em meu trabalho no Centro de Saúde, logo que iniciei meu trabalho com portadores de deficiência, autistas e distúrbios de comportamento, as recepcionistas, atendentes e demais funcionários faziam muitas perguntas sobre as crianças, tinham muito receio de falar com elas, ficavam inseguras quanto à forma de lidar com elas, etc. Atualmente, é muito bonito de se ver, todos se referem às crianças, sem nenhum adjetivo. São as crianças do Centro de Saúde que estão aguardando o atendimento psicológico. As mães, no início com muita vergonha, tentavam esconder seus filhos, hoje passeiam com eles em todos os cantos da unidade. E o melhor: contam para quem quiser ouvir os progressos de seus filhos.


Os educadores sentiam-se mais confortáveis com o sistema da Educação Especial?

E.E. Obviamente, a segregação faz com que a sociedade não veja aquilo que não compreende ou sobre o que não quer pensar. A educação especial teve a sua utilidade, em um momento específico, porém excluía parcela da população de vivenciar uma vida igual aos outros. Quantos meninos e meninas não iam a festas, não brincavam com os vizinhos, primos e irmãos, pois não freqüentavam as mesmas escolas. Os amigos se fazem na escola, e a parcela que freqüentava a escola especial só convivia com alunos de sua escola. Para o professor da escola especial também era bastante confortável trabalhar aí, pois geralmente estas escolas são bem equipadas, às vezes às custas de doações e iniciativas das empresas privadas. Atualmente, percebo muitos profissionais especializados na área preocupados com o futuro de seus alunos dentro da rede comum. Acho justa a preocupação, porém acredito que, quando a escola tiver uma qualidade boa para seus alunos, ela estará adequada para todos, inclusive os portadores de necessidades especiais.


Percebemos que as crianças não possuem preconceitos pré-estabelecidos quando da convivência com crianças portadoras de deficiências. Onde este problema tem início?

E.E. No adulto. As crianças são curiosas, perguntam por que o menino não fala direito, por que utiliza aquela 'coisa' na perna, etc. Porém, após uma resposta satisfatória, são as primeiras a aceitarem a diferença. São mais maleáveis que nós. O adulto é que fala que é feio apontar, perguntar, mostrar; fica tudo muito escondido, proibido, tornando-se algo feio que não é para comentar. A convivência com a diversidade será benéfica a todos, pois estaremos mais aptos a viver em harmonia, nesta época tão descrente nos valores humanos. O convívio na diversidade em sala de aula fará com que esta criança habituada com as diferenças desde a creche se torne um indivíduo que, ao ingressar no curso superior será um advogado, arquiteto, médico, desenhista, que conhece e teve amigos portadores de deficiência e lembrará deles ao realizarem seus trabalhos. Antes de terminar acho importante relembrar os nomes de três profissionais que estão engajados na sociedade inclusiva, trazendo-nos material relevante para nosso esclarecimento, Maria Tereza Egler Mantoan, Claudia Werneck e Romeu Kazumi Sassaki.

Você tem um site na Internet?

E.E. Sim, o endereço: http://www.talk.to/eliza


Eliza Helena Ercolin é Mestre em Psicologia da Saúde; psicologa na Unidade de Especialidades de Guarujá, atendendo crianças na faixa de 0 - 7anos com dificuldades de aprendizagem, autismo e Asperger e portadores de deficiência mental; professora universitária; consultora e palestrante.

Fonte: Psicopedagogia Online
Data: 08/11/2004

 
     
 
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Museu de Évora para cegos

O Museu de Évora - encerrado para obras de recuperação até 2006 - criou um núcleo de exposições temporárias, na Igreja de Santa Clara, cuja originalidade é permitir a visita de deficientes visuais. O museu - que, actualmente, além de pinturas dos séculos XVI e XVIII, tem expostas esculturas medievais, entre outras - disponibiliza um projecto de descodificação das suas diversas colecções para cegos: dossiês escritos em Braille fazem a descrição e a explicação de cada uma das obras, que depois podem ser compreendidas através de um conjunto de feltros cujas texturas permitem a sua "visualização" através do tacto.

Fonte: Jornal Expresso
Data: 06/11/2004

 
     
 
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Deficientes Propõem Criação de Comissões para Fiscalizar Eliminação de Barreiras



A Associação Portuguesa de Deficientes (APD) vai hoje propor a criação de comissões independentes para fiscalizar a eliminação das barreiras arquitectónicas,durante uma conferência de imprensa que decorrerá na sua sede, em Lisboa. A sugestão acontece três dias depois de ter terminado o prazo para que todos os edifícios abertos ao público garantam o acesso aos cidadão com mobilidade condicionada, sem que a meta tenha sido alcançada.

O período de sete anos que o decreto-lei 123/97 determinou acabou na passada sexta-feira, mas ainda há muitos edifícios que não respeitam as exigências
da lei. Por isso mesmo, a APD lembra qualquer cidadão pode, a partir de agora, intentar acções de incumprimento contra o Estado português.

A ausência de um órgão fiscalizador foi uma das falhas apontadas pela APD para justificar o insucesso do diploma, o que explica a nova proposta. "É muito
fácil legislar, difícil é conseguir concretizar a lei. É preciso monotorizar as decisões políticas, se não elas acabam por não ter efeito prático", sustenta o presidente da APD, Humberto Santos.

A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) deveria ter ficado responsável pela fiscalização do diploma, mas uma alteração de última hora passou a atribuir a competência apenas "às entidades licenciadoras", ou seja, as câmaras municipais. No entanto, como os edifícios públicos estão isentos de licenciamento, não são abrangidos pela fiscalização. Por outro lado, as câmaras são responsáveis pelo licenciamento dos projectos que, por vezes, violam a lei e, por isso, não têm o distanciamento necessário para aplicar as coimas previstas.

"O Estado não pode fiscalizar-se a si próprio, por isso, defendemos a participação de outras organizações nas comissões", refere Humberto Santos. A APD
sugere que estes órgãos, de âmbito municipal, integrem além das entidades licenciadoras, organizações da sociedade civil com intervenção na área e associações de consumidores.

O aumento do valor das coimas previstas (actualmente entre 250 euros e 10.000 euros), a criação de um fundo público para o qual reverta parte do valor das multas, a aplicação das sanções disciplinares aos funcionários da administração pública que não participem infracções que conhecem e a impossibilidade
dos incumpridores receberam subsídios públicos também compõe o longo rol de proposta. A APD alerta ainda para a necessidade de elaborar, de forma vinculativa, planos municipais de acessibilidade de forma a permitir a existência de mecanismos de acompanhamento e orçamentação das intervenções necessárias para tornar os concelhos acessíveis.

Fonte: Jornal Público
Data: 23/08/20004

 
     
 
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Roupa com energia
Vestuário com nanocélulas solares dentro de 3 a 5 anos


A FICÇÃO vai transformar-se em realidade. Provavelmente nesta década, teremos camisas ou casacos acumulando energia renovável. Não falta muito para começarmos a usar a própria roupa que vestimos para carregar os telemóveis, os PDA, os computadores portáteis, ou mesmo outros aparelhos electrónicos cozidos na nossa roupa. Depois da linha de "wearables" (também chamado "softwear", vestuário electrónico - não confundir com "software", o irmão mais velho), apresentada em passagem de modelos pelo Media Lab de Negroponte há oito anos, temos na calha o vestuário de "electricidade portátil", algo como "energia sem fios andante e renovável". O que viria resolver o problema incómodo das baterias.

Investigadores canadianos do Departamento de Engenharia Eléctrica e de Computadores da Universidade de Toronto, dirigidos pelo professor Edward Sargent, inventaram uma célula solar flexível em plástico que poderá ser cinco vezes mais eficaz do que os métodos actuais de conversão de energia do Sol em energia eléctrica. A equipa criou um sensor fotodetector e um conversor fotovoltaico formados por nanopolímeros (com um diâmetro do tamanho de dois, três ou quatro bilionésimas do metro) que captam a luz em infravermelhos, no espectro invisível. Depois de se evaporar o solvente em que esses nanopolímeros se dispersam, gera-se um filme flexível "muito robusto" que pode ser bordado no vestuário ou aplicado em papel ou em outros materiais, como no silício. "A nossa invenção vai permitir potenciar os 'wearables'. Mas a tecnologia de detecção no infravermelho pode inclusive ser 'pintada' directamente nos 'chips' de silício, o que abre terreno para muitas outras aplicações civis e militares", afirma ao EXPRESSO Ted Sargent, director do Departamento universitário em Toronto e também professor no MIT, em Boston.

O artigo científico apresentando a demonstração deste efeito fotovoltaico foi, agora, publicado nas "cartas antecipadas" da edição "online" da revista científica "Nature Materials", sob o título "Solution-processed PbS quantum dot infrared photodetectors and photovoltaics", assinado por sete membros da equipa. O artigo culminou uma investigação de dois anos. Edward Sargent espera que o tempo de chegada ao mercado seja de 3 a 5 anos.

Fonte: Semanário Expresso
Data: 29/01/2005

 
     
 
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